É comum ouvirmos que a “universidade tem que devolver o financiamento para a sociedade”, ou então que “a universidade deve servir para a transformação social”. Para além do jargão e do senso comum assistencialista, ou de tecnologias aplicadas a problemas de saúde – por exemplo, as células-tronco de Mayana Zatz, da USP, ou os “milagres” de Miguel Nicholelis, neurocientista aplaudido em todo o Brasil – a universidade tem, de fato, um papel de transformar a sociedade? Ela produz tecnologia e recursos humanos para o setor produtivo, ela produz conhecimento através das publicações científicas e o divulga através de publicações de maior acesso do público em geral. Ela forma professores que lecionarão em todas as escolas públicas do país e fala, pelo menos, que faz a tal da Extensão. De fato, do tripé Ensino, Pesquisa e Extensão, a última é tratada como um penduricalho, muitas vezes como algo que a maioria dos professores odeia lembrar que existe.
Entre os grandes problemas do país há dois em que a universidade poderia pensar e atuar de forma decisiva: o problema habitacional e o problema agrário. Os dois não foram elencados aqui por acaso, são problemas históricos ligados à concentração de terra no Brasil e questões que vêm crescendo em âmbito nacional, tanto pela necessidade crescente de moradia nas grandes cidades, quase como uma catarse social, como pelos conflitos agrários (ou massacres mesmo) que, em pleno século XXI, continuam como se estivéssemos no início da colonização. Também não é por acaso que existe um grande número de movimentos populares que estão organizando os trabalhadores para estas lutas, como o MST, a CPT, o MTST, o Terra Livre, o MAB, o MLST1, entre tantos outros nacionais, regionais e locais.
Quando milhares de pessoas escolhem entre comer ou pagar o aluguel de um barraco em área de risco, ou centenas de imóveis no centro de João Pessoa estão vazios, juntando lixo e se degradando, ou multidões enfrentam perigos e a lei para ocupar um terreno, ou latifundiários continuam lucrando com terras públicas griladas, com excesso de agrotóxicos e transgênicos, ou multidões sendo expulsas do campo, alimentando as favelas nas cidades, ou agricultores pobres são executados por defender um espaço mínimo de terra para plantar, entre outros grandes sintomas da desigualdade social, perguntamos à academia: a universidade deve ficar isenta de opinião? A universidade não tem o papel social de estender o seu conhecimento para resolver esses problemas? A universidade deve ficar em que lado em uma sociedade em que as diferenças entre ricos e pobres aumentam e geram conflitos sociais cada vez maiores? A luta de classes está dada, apesar dos setores que tentam jogá-la para debaixo do tapete, e a universidade não está acima disso. Pelo contrário, está completamente envolvida.
Na UFPB, existem inciativas que se colocam ao lado dos movimentos populares, por entender as demandas como justas e a luta social como meio legítimo de buscá-las – já que as políticas públicas continuam ineficientes. O Núcleo de Extensão Popular Flor de Mandacaru, do Centro de Ciências Jurídicas, coordenado por Renata Rolim, Roberto Efrem e Ana Lia Almeida (professores que constroem também este coletivo), é um exemplo de engajamento de professores e estudantes nas lutas pela moradia e pela terra. Eles estão trabalhando em alguns conflitos de altíssima relevância social, como a do povo do bairro São José que vive entre as cheias do rio, a Prefeitura e o Shopping, sedento por mais espaço e lucro. Outro exemplo é o grupo de pesquisa das Ciências Sociais da Prof. Maria Auxiliadora Botelho, que coloca claramente a fonte dos problemas habitacionais: o mercado imobiliário, que especula e lucra muito, e sufoca o povo pobre. Muitas outras iniciativas podem ser exemplificadas na UFPB e em diversas outras universidades, mas falta um elemento chave: o posicionamento claro da universidade como um todo, ou pelo menos de sua comunidade, principalmente os professores, vistos pela sociedade como os detentores do saber.
Ora, da universidade-instituição não poderíamos esperar muito, dominada pelos mesmos grupos do poder do Estado, que entendem, como nós, que a universidade está inserida na sociedade. Assim, reproduzem o que os grupos do poder querem para a sociedade: continuidade do status quo através do assistencialismo (aplicado na extensão), do apadrinhamento e do clientelismo, quando não pela repressão e autoritarismo. Mas o que devemos esperar dos professores? Os mesmos que fizeram uma greve nacional histórica e que colocou o poder estabelecido contra a parede para defender a educação pública de qualidade? Eu espero que se posicionem ao lado da sua própria classe, dos que trabalham e recebem um salário para ganhar a vida, dos trabalhadores que estão lutando por teto e por terra, como nós lutamos pela nossa carreira e condições de trabalho.
Prof. Dr. Marcio Silva
Centro de Ciências Exatas e da Natureza
1MST=Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, CPT=Comissão Pastoral da Terra, MTST=Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, Terra Livre=Movimento Popular Terra Livre - campo e cidade, MAB=Movimento dos Atingidos por Barragens, MLST=Movimento de Luta dos Sem-Terra.
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