Frente
aos ataques perversos do (des)governo Bolsonaro, este texto caminha na corda
bamba de provocações (im)pertinentes que foram forjadas a partir do confronto
de defesas verbais, sobre como devemos enfrentar este grave período de
retrocesso, e análises sobre como temos engendrado nossas relações cotidianas
na UFPB.
Assumamos
como ponto de partida a concepção de que atividade acadêmica, como qualquer atividade
humana, é orientada por finalidades e, neste sentido, as perguntas “educação
para quê?” e, considerando uma sociedade estruturalmente marcada pela
exploração e desigualdade, “educação para quem?” delineiam-se como fio condutor
desta reflexão.
Neste
sentido, criemos um diálogo imaginário com falas apresentadas na reunião dos
conselhos universitários do dia 07/05/19 e na plenária do dia 08/05/19 em que
ressoaram defesas de que a unidade na diversidade seja um caminho potente para
a construção da luta dxs trabalhadorxs e exploradxs contra as atuais formas de
violência vivenciadas em nossa sociedade. A pertinência desta concepção é
inquestionável. Para a construção de uma Universidade pública, gratuita e de
qualidade é essencial, talvez mais do que nunca, que legitimemos as liberdades
de pensamento, de expressão, de posicionamento político, de manifestações
culturais, de diversidade de gênero, sexual, racial, regional, religiosa, que
defendamos a tolerância e o respeito, a autonomia didático-pedagógica e de cátedra,
o respeito à pluralidade e defesa dos direitos fundamentais, ou seja, a unidade
na diversidade contempla de forma ímpar o que necessitamos para este momento. No
entanto, ainda que compartilhemos desta análise, é necessário mantermos viva a
perspectiva de que a unidade, expressa pela “crítica às armas”, jamais poderá
deixar de se valer da “arma da crítica”.
Assim,
defendemos que a unidade na diversidade deixará de ser discurso e passará a ser
produto de nossas práticas acadêmicas cotidianas à medida em que sentirmos que
estamos todxs, efetivamente, lutando por uma mesma finalidade. Sob este ponto
de vista, gostaríamos de problematizar algumas percepções que, ainda que
relativas a eventos isolados, são, desde nossa perspectiva, expressões de
dinâmicas institucionais da UFPB.
Destacamos,
inicialmente, as dificuldades do processo de construção da estatuinte em ganhar
genuinamente os espaços de debate na Comunidade Universitária e, neste âmbito,
enfatizamos a luta travada entre os delegados para que se escrevesse,
explicitamente, no texto da estatuinte a defesa pela Universidade pública,
gratuita e de qualidade.
Relembramos
as reuniões que foram realizadas nos departamentos de diversos centros da UFPB,
pela Pró-Reitoria de Graduação, com o objetivo de refletir sobre problemas vinculados
à vida acadêmica de nossxs estudantes. Tais reuniões foram marcadas pela
leitura de um conjunto enorme de números que culminou em análises que, em sua
essência, explicam os problemas de rendimento acadêmico na UFPB como produtos
de práticas docentes desinteressantes e como efeitos da chegada de alunos
pobres à Universidade. Tal concepção distancia-se da perspectiva de unidade na
diversidade para reproduzir ideias que, secularmente, circulam nos campos da
Educação e da Psicologia e favorecem a manutenção do status quo, dos interesses
das classes dominantes, pois não problematiza questões sociais, políticas e
institucionais que produzem um “sem número” de obstáculos para a efetivação de
uma prática pedagógica de qualidade e transformadora de todxs envolvidxs.
Realçamos
a criação de uma superintendência de segurança apartada de um debate amplo e
democrático da Comunidade Universitária sobre a política de segurança que
desejamos para esta instituição.
Questionamos
por que houve pouca divulgação e mobilização da Comunidade Universitária para a
reunião dos conselhos universitários ocorrida neste dia 07/05/19. Indagamos,
além disso, por que a nota que foi apresentada como ponto de debate destareunião já estava divulgada na página da UFPB antes do término da mesma. Defendemos
que a apresentação dos números da UFPB, análise quantitativa essencial para o
conhecimento das atividades efetivadas por esta instituição, ao não vir
acompanhada de uma análise qualitativa que expresse quais são os processos
sociais e políticos que produzem mudanças no orçamento da Universidade perde a
oportunidade de explicitar contra quem e o que estamos lutando. Ainda sobre
esta nota, ao considerarmos a escrita como uma ferramenta historicamente
construída pela humanidade para cristalizar pensamentos e para comunicar-se com
outros, problematizamos: o que nos comunicou esta nota? Chama a atenção o fato
de o título da nota manter o termo “bloqueio”, sugerido pelo MEC para ocultar a
essência deste ataque. Palavras não são neutras, estamos ou não enfrentando os
(des)governos de Bolsonaro e os CORTES orçamentários feitos inconstitucionalmente
na Educação? Chama a atenção que as ciências naturais sejam destacadas
deslocadas das ciências humanas. Além disso, a defesa pela Universidade pública
e gratuita aparece, timidamente, no último parágrafo da nota. Assim, o sentido
discursivo que sobressai das linhas escritas desta nota delineia muito mais a
educação como mercadoria com alto valor agregado do que como uma ferramenta de
luta para a classe trabalhadora.
Evidenciamos
também a necessidade de que se construam discussões sistemáticas, em assembleia
ou a partir de grupos de trabalho (que não estão acontecendo), na seção
sindical ADUFPB, sobre quais são os anseios e necessidades dos docentes que
compõem a base deste sindicato, visto que não temos experimentado construções regulares
de pautas coletivas pelos docentes da UFPB, elaborações essenciais para nossas
lutas internas e para serem socializadas em espaços mais amplos de luta, como,
por exemplo, o Congresso do ANDES-SN.
Endossamos
a necessidade de que o movimento estudantil mobilize-se e se inflame frente à
brutalidade de nossos tempos. Como precisamos da força dos jovens!
Por
fim, defendemos que a unidade na diversidade será produto de ações cotidianas e
não apenas de palavras que, mesmo necessárias, não são suficientes para nossa
luta à medida em que a gestão universitária aproxime-se da Comunidade Universitária
e defenda seus interesses, que o sindicato dos professores, ADUFPB, enfrente a
burocracia e trabalhe, a partir da base, a favor da classe trabalhadora
representada, em nosso contexto, pelos servidores docentes desta Universidade,
articulando-se ainda ao sindicato dos servidores técnicos da UFPB, que o
movimento estudantil ganhe todos os corredores desta instituição e que, em
conjunto, possamos criar em nossos encontros a unidade necessária para a defesa
de uma Universidade pública, gratuita, de qualidade e a serviço da população
que a mantém.
Neste
sentido, defender a unidade na diversidade significa lutar para que ela seja
construída de forma viva e pulsante a partir de encontros cotidianos que rompam
com a lógica de valorização de interesses individuais e privados em detrimento
de interesses coletivos, encontros nos quais possamos lutar de forma ampla,
democrática e participativa, encontros que contemplem, inclusive, o debate de
ideias, instrumento inerente e imprescindível às instituições de ensino, que,
inevitavelmente, implica no debate de ideologias e concepções de mundo.
Longe
de ter a presunção de propor receitas para a construção de uma luta coletiva,
este texto constitui-se como um convite ao diálogo que precisa, inclusive,
contemplar as percepções aqui expressas. Inadiável é nos lançarmos na invenção
de ferramentas de luta contra a política de cortes do MEC e contra todo o
projeto de ataque aos direitos sociais concretizado pelo atual governo federal.
Cárita
Portilho
Docente
DFE/CE/UFPB
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