quinta-feira, 10 de março de 2016

Pintando o mundo de lilás: feminismo, autonomia e a crise

Mulheres professoras, estudantes, trabalhadoras domésticas, do comércio, camponesas, negras, lésbicas, mães ou não, trabalhadoras paraibanas: hoje, 08 de Março, é o nosso dia! O dia da mulher que trabalha e luta, o dia da mulher que não aceita o mundo como ele está.

O Coletivo Representativo dos Docentes em Luta (CORDEL) da UFPB saúda este dia e as bandeiras que ele carrega. Bandeiras que não começaram a ser erguidas pelas mulheres de hoje, mas remontam a séculos de resistência contra toda a história de exploração e violência contra nós, especialmente a exploração no mundo do trabalho.

Não é à toa que o 08 de Março rememora o triste episódio em que dezenas de operárias norte-americanas foram trancadas dentro de uma fábrica e queimadas pelos seus patrões. Elas foram assassinadas porque protestavam por melhores condições de trabalho. Esta luta continua atual. Todos trabalhadores são explorados e desrespeitados. Mas a situação das trabalhadoras é ainda pior: recebem salários menores, menos respeito, mais assédios, ocupações precárias. E além da exploração no trabalho remunerado, são submetidas a um pesado trabalho não remunerado, doméstico, onde ocorrem violências constantes. Em tempos de crise, a situação só piora.

É inegável que o mundo passa por uma grave crise - econômica, mas também política, social e de valores. Uma crise global do capitalismo. No Brasil, o governo federal não cria a crise, mas escolhe as respostas a ela.  Não podemos negar que as opções político-econômicas do governo federal contribuem para o agravamento dessa crise de modo especialmente penoso para as trabalhadoras e os trabalhadores do nosso país.


O ajuste fiscal, com a retirada de direitos conquistados por nós com tanto suor e luta, indica com clareza a opção do governo em nos fazer pagar a conta da crise. Menos dinheiro para a saúde, para a educação e para os investimentos sociais em geral. As reformas necessárias para superar problemas estruturais do Brasil, como o acesso à terra, ao território e à soberania alimentar (Reforma Agrária), à moradia (Reforma Urbana), à democracia (Reforma Política) etc., se não estavam mais, há tempos, no programa do governo Federal na “Era PT”, com a crise político-econômica agora agravada, sumiram de vez da pauta. Fica cada vez mais evidente que o PT e o Governo Dilma não nos apontam caminhos à esquerda para enfrentar a crise econômica de modo a atender aos interesses das trabalhadoras e dos trabalhadores. 

Não fazemos coro, no entanto, com as vozes das elites do país que convocam o impeachment da Presidenta, buscando colocar na agenda política opções igualmente ou ainda mais nefastas para os interesses das classes populares. São as mesmas vozes que cantam alto contra nossos direitos, das mulheres, ao trabalho digno, ao nosso corpo, à nossa participação política na democracia. Mas entendemos, por outro lado, que os arranjos que trouxeram a “governabilidade” agora em crise do PT e do Governo Dilma são os mesmos que fortaleceram esses setores conservadores, e, portanto, o governo federal não é uma simples vítima da grave crise política que se instalou no Brasil. O poder de Eduardo Cunha, por exemplo, é símbolo desses arranjos que possibilitam relações contraditoriamente fraternais entre o PT e os setores ditos mais “conservadores” da política nacional que agora clamam pelo impeachment. Não é possível, desse modo, questionar Eduardo Cunha e as “forças conservadoras” sem questionar o compromisso do Partido dos Trabalhadores com estes setores.


Por isso acreditamos que é preciso construir outras possibilidades políticas e organizativas para as esquerdas, forjadas na luta da classe trabalhadora. Acreditamos, também, que a luta das mulheres é indispensável para construir essas alternativas. O novo mundo que está por vir (embora pareça distante e incerto nesse momento) será construído com as nossas próprias mãos, ou não será novo. Um mundo pintado de lilás, pelas mãos das mulheres que trabalham, de braços dados com os seus companheiros e companheiras.

Por um mundo sem qualquer tipo de opressão contra nós mulheres!

   Por um feminismo com autonomia política e liberdade para construir a luta nos marcos das contradições da sociedade capitalista sem abrir mão dos princípios revolucionários que organizam nosso anseio pela construção de uma sociedade livre da exploração do trabalho e que a luta pela emancipação humana seja a nossa principal motivação.

    Por isso saudamos a memória do dia 08 de Março! Por isso saudamos a luta de nós mulheres! Por isso saudamos o novo mundo que virá! E por isso nos mantemos em luta!

 CORDEL,
Março de 2016

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