O Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais - REUNI têm seus méritos como, por exemplo, a interiorização do ensino superior e a criação de novos cursos. Porém, a concepção política que concebeu essa reestruturação e ampliação no sistema universitário brasileiro é ultrapassada e trouxe junto com ela o acirramento de divisões acadêmicas que não mais existem em universidades de educação liberal em países avançados. Cresceu o racha na estrutura acadêmica entre as graduações e as pós-graduações com consequências visíveis na administração, autonomia e cultura universitárias, mas esse tema fica para outra postagem.
No balanço dos méritos e prejuízos do REUNI, a mudança no sistema se caracteriza pela imposição do Governo Federal e submissão das Reitorias, Centros e Departamentos ao processo. Um autoritarismo “nunca antes” esperado por aqueles que lutaram pela liberdade durante a redemocratização do Brasil. Valendo lembrar que a categoria dos professores de ensino superior sofreu baixas significativas em seu contingente durante os 30 anos de ditadura no Brasil. Depois de uma luta subversiva por uma militância corajosa, a categoria hoje encontra um governo que não negocia e desrespeita a voz dos professores.
Ainda ecoa nos espaços virtuais e aos ouvidos dos professores as palavras do Ministro da Educação Aloísio Mercadante dizendo em uma entrevista que “os professores estão sentindo as dores do parto”. Durante a greve mais longa do ensino superior onde os professores buscavam proteção diante das condições de trabalho, o Sr. Ministro faz alusão ao parto por considerar as dores inevitáveis ao nascimento de uma criança, que deve crescer e se desenvolver, mas o desenvolvimento depende da qualidade do contexto que o REUNI seria inserido O contexto atual mostra que o governo federal impregnou o seio do único setor social que ainda pode ser responsável pelo avanço de uma nação, a educação. O leite não será nutritivo para a criança que nasce, pois a mãe se encontra moribunda. As mudanças impostas às universidades mostram-se de qualidades duvidosas, quantitativamente excessivas, tanto quanto catastróficas no que se referem às condições do trabalho as quais professores, servidores técnicos administrativos e alunos estão sujeitos.
No âmbito local da UFPB, as condições de trabalho a que estão sujeitos os docentes e técnicos vêm sendo denunciadas e debatidas nos colegiados departamentais. Encaminhamentos são tirados das reuniões e seguem propriamente pelas vias institucionais solicitando providencias aos setores competentes da UFPB como, por exemplo, dos Departamentos para a Direção de Centros, Reitoria, etc. Porém, na grande maioria dos casos não existe retorno desses processos. Os processos se acumulam, ficam engavetados e literalmente caem no esquecimento até que um novo processo chega para ser acumulado sobre o montante já existente. As práticas institucionais não estão seguindo seu curso justo.
Como exemplo mais recente, a Clínica de Psicologia, que atende a comunidade paraibana e é central ao curso de formação de psicólogos, fechou suas portas por falta de condições de funcionamento. A precariedade física e higiênica, e a falta de segurança para os técnicos e professores que ali trabalham, mesmo durante o dia, impedem a clínica de ser utilizada. Conseguiu-se a construção de um novo espaço (ou puxadinho) que, diga-se de passagem, custou dinheiro público, mas a incapacidade dos profissionais de planejamento de utilizar recursos públicos de forma adequada construiu um conjunto que mais se parece com uma “rodoviária” de cidade pequena. O puxadinho também é digno de uma analise Lacaniana. Foram construídos dois blocos separados, porém unidos por um cordão umbilical, ou seja, um corredor aberto ao sol escaldante ou as chuvas ligando o absurdo que foi a construção de um prédio que não possui luz elétrica (bloco 1) ao nada que serve as duas ou três pequenas salas quentes e isoladas do outro lado (bloco 2).
Os professores e técnicos se perguntam: onde foi parar o projeto de construção de uma nova clínica para a psicologia entregue e discutida junto com a Direção de Centro? Acho que deveria se falar de projetos no plural, pois com o passar do tempo diversos projetos já foram encaminhados e nada foi solucionado.
Na sua luta diária, os professores caminham para as salas de aula carregando diariamente o equivalente a 3 quilos de peso de “bagagem pedagógica”. Um professor do departamento de Sociologia até apelidou os professores de “Cangaceiros Virtuais” tantas são as alças de equipamentos que cruzam o peito dos professores que segue em frente na sua lida diária. É verdade também que alguns professores estão se rendendo as mochilas com rodinhas, pois no lombo o peso é grande.
A foto ilustra os equipamentos maiores que são carregados para a sala de aula diariamente: data shows, transformadores, livros etc. Dentro das bolsas vão diversos fios conectores, carregadores, adaptadores e, se brincar, encontrará até elevadores, já que as novas construções não possuem acessibilidade e foram construídas com três vãos de escadas. Diferente da alusão de dor feita pelo Sr. Ministro, os 3 quilos desse material tecnológico transportado diariamente gera dores e enfermidades reais no corpo dos professores.
Embora os caminhos percorridos entre os departamentos e as salas de aula sejam longos e as novas construções faltem em acessibilidade para os cadeirantes, algo inimaginável para uma universidade pública nos tempos atuais, os novos blocos ainda fazem diferença por serem mal acabados, vergonhosamente barateados e sem condição de funcionamento. Como foi utilizada a verba para essas construções? A quem competia o planejamento e a supervisão do uso do dinheiro público?
Não tentem buscar respostas a essas questões, pois as vias institucionais se encontram impedidas de trâmite. Se bem que poderia o sindicato dos professores atuar, pois é a única força institucional que os professores possuem e para o qual eles contribuem mensalmente, mas até para os sindicatos vale perguntar: O que faz (ou fez) o sindicato para proteger e defender as condições de trabalho dos professores diante das mudanças impostas pelo governo federal? A que se destina a ADUFPB?
Júlio Rique Neto
Professor do Departamento de Psicologia
Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social
UFPB

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